PUBLICIDADE

Topo

Maconha “pra relaxar” pode ser tiro pela culatra

Jairo Bouer

02/06/2020 04h00

Crédito: iStock

Muita gente acredita que fumar maconha ajuda a relaxar, mas isso não é sempre verdade. A cannabis de hoje tem muito pouca semelhança com aquela usada pela "geração paz e amor", nos anos de 1970. Há evidências até do oposto: a potência mais alta da droga encontrada por aí, hoje, pode provocar transtornos de ansiedade, entre outros problemas de saúde mental. Assim, quem aderiu à erva para diminuir as tensões ligadas ao covid-19 e o isolamento social pode se dar mal.

Um estudo publicado semana passada no Jama Psychiatry, feito com quase 1.100 usuários britânicos de 24 anos, reforça o alerta. Aqueles que usavam versões mais potentes da droga apresentaram o dobro do risco de desenvolver transtorno de ansiedade generalizada, quando comparados a quem usa uma maconha "mais fraca".

Foi considerado como "alta potência", no estudo, amostras de maconha com pelo menos 10% de THC. Esse composto, o tetrahidracanabinol, é o responsável pelo "barato" provocado pela erva. Diversos estudos já associaram doses mais altas de THC a problemas psiquiátricos, como sintomas psicóticos e dependência.

Há mais ou menos duas décadas, a proporção de THC encontrada nas plantas apreendidas pela polícia era de 2 a 4%. Há cerca de dez anos, a média passou a ser de 25%, e hoje existem linhagens de cannabis com 30 a 40% de THC. Se alguém na faixa dos 50 anos decidir provar um baseado para reviver a sensação que teve aos 20 anos vai perceber que a "viagem" é bem diferente.

A pesquisa do Jama indica que os usuários da maconha "mais forte" eram na maioria homens e quatro vezes mais propensos a ser dependentes da droga. Também foram mais de três vezes mais propensos à dependência de cigarro e relataram, com duas vezes mais frequência, ter usado outras drogas ilícitas no ano anterior à entrevista. Por fim, esses adultos jovens foram 29% mais propensos a relatar experiências psicóticas.

A não ser para aqueles usuários que plantam cannabis em casa e têm conhecimento científico suficiente para saber que tipo de linhagem estão usando, ou compram de produtores certificados (nos países em que a venda é permitida), a maioria das pessoas não tem ideia do que está consumindo.

Para quem acha que pode parar quando quiser, faço outro alerta. Outro trabalho publicado esses dias na Jama, uma meta-análise que envolveu mais de 23.500 pessoas, revelou que 47% dos usuários regulares ou dependentes têm sintomas de abstinência ao parar de fumar maconha. Isso é ainda mais preocupante quando se leva em consideração que boa parte dos usuários começa na adolescência.

Por tudo isso, vale o princípio da precaução, ainda mais neste período em que todo mundo já tem motivos de sobra para ficar ansioso. O uso terapêutico da maconha tem sido bastante estudado, alguns benefícios são bem conhecidos, enquanto outros ainda aguardam confirmação. Em alguns casos, a melhora é incontestável. Mas o uso medicinal é muito diferente do recreativo.

Sobre o autor

Jairo Bouer é médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e bacharel em biologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Fez residência em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da USP. Nos últimos 25 anos tem trabalhado com divulgação científica e comunicação em saúde, sexualidade e comportamento nos principais veículos de mídia impressa, digital, rádios e TVs de todo o país.

Sobre o blog

Neste espaço, Jairo Bouer publica informações atualizadas e opiniões sobre biologia, saúde, sexualidade e comportamento.