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Saúde mental e pandemia: o que fazer se você não está bem?

Jairo Bouer

31/03/2020 04h00

Crédito: iStock

"Desde o pronunciamento desencontrado do Bolsonaro na semana passada, comecei a ter ataques de pânico. Fazia anos que não sentia nada parecido. Acordei à noite sentindo a cama inteira vibrando com os batimentos do meu coração. Não sabia se a falta de ar era por causa da crise ou do coronavírus!" (N., mulher, 34, Rio de Janeiro)

"Meu TOC que estava sob controle descompensou. Estou cheio de manias e rituais de checagem de novo." (F., homem, 55, Florianópolis)

"Tenho asma e estou muito ansiosa, com medo. Cada vez que ouço as notícias, minha ansiedade e tristeza crescem. Não quero nem ir ao supermercado. Você acha que vou ficar ruim de novo?" (C, 45, mulher, São Paulo)

Um efeito colateral das incertezas da pandemia e do próprio isolamento de quase três semanas em algumas cidades é um aumento importante dos níveis de estresse e de ansiedade em parte da população. Se essa situação já é complicada para quem não tem história de transtornos emocionais e impacta diretamente a qualidade de vida, o que dizer das milhões de pessoas ao redor do globo que enfrentam ou já enfrentaram alguma dificuldade de saúde mental?

Os relatos acima são algumas das mensagens que pacientes e ex-pacientes me enviaram na última semana. Crises de ansiedade, sintomas depressivos, aumento da sensação de alerta permanente, rituais de limpeza e checagem exacerbados, descontrole dos episódios de bulimia, aumento do consumo de álcool, são apenas alguns dos sintomas que começam a explodir nos consultórios reais ou virtuais de psicólogos, psiquiatras e psicoterapeutas.

Incertezas sobre o rumo da pandemia, receio de adoecer ou de perder amigos e parentes, tensão constante, informações desencontradas, "fake news" alarmistas, "fake news" negacionistas, confinamento, medo de ficar sem emprego ou sem dinheiro, perda de contatos sociais, entre outros fatores, são a matéria prima desse caldo que enche a vida das pessoas de ansiedade e estresse.

Para além do aumento do sofrimento emocional e do maior risco do surgimento ou do agravamento de quadros de transtornos de ansiedade, depressão e abuso de drogas, em casos mais extremos, há maior risco de violências de diversas naturezas (abuso sexual, autoagressão, violência doméstica) e, também, de suicídio.

Como, então, lidar com nossa saúde mental em meio a esse turbilhão emocional e às agruras da vida em casa, já que romper o isolamento nesse momento não é uma opção? Vão aí algumas estratégias possíveis em meio a uma infinidade de outras possibilidades e caminhos:

1. Não existe um menu ideal de conduta para todo mundo. Cada um tem que elaborar seu próprio manual que, aliás, pode e deve ser atualizado de tempos em tempos.

2. Você é sempre o melhor termômetro! Quando perceber que não está bem, dispare o alerta! Mas os outros (amigos) podem ajudar com algumas observações sobre seu comportamento.

3. Regule a quantidade e frequência de notícias sobre a covid-19, principalmente se você percebe que a exposição está fazendo mal. De preferência sempre a fontes confiáveis de informação. Cuidado redobrado com "fake-news" e conteúdos das redes sociais.

4. Crie uma rotina, tentando ordenar as atividades do dia.

5. Tente encarar um dia após o outro. Não pense em prazos máximos e e infindáveis de quarentena.

6. Aproveite seu tempo em casa para fazer coisas que você gosta e que na correria do dia a dia não consegue realizar.

7. Tente manter atividade física regular, mesmo dentro da sua casa (algumas cidades permitem saídas para praticar exercícios, desde que sejam locais abertos e sem aglomerações)

8. Procure atividades que ajudem você a desfocar da ansiedade e da preocupação exagerada com sintomas. Ver uma série, ler um livro, meditar, fazer relaxamentos, enfim, qualquer coisa que mantenha sua concentração longe das suas preocupações.

9. Não se isole! Esse é o momento de ligar para amigos, fazer vídeo-chamadas, usar suas redes de apoio. Isolado sim, sozinho nunca!

10. Ao menor sinal de que as coisas não vão bem, peça ajuda de profissionais de saúde mental ou procure serviços de apoio, como o CVV. Boa parte deles está atendendo à distância!

11. Não tome remédios (ansiolíticos, antidepressivos) sem orientação médica, não beba todos os dias para relaxar e, também, não beba muito de uma só vez!

12. Se perceber que o isolamento está levando a um aumento de tensão com seu parceiro, tente entender como melhorar isso. Não deixe essa tensão crescer e sair do controle para tomar uma atitude!

Sobre o autor

Jairo Bouer é médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e bacharel em biologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Fez residência em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da USP. Nos últimos 25 anos tem trabalhado com divulgação científica e comunicação em saúde, sexualidade e comportamento nos principais veículos de mídia impressa, digital, rádios e TVs de todo o país.

Sobre o blog

Neste espaço, Jairo Bouer publica informações atualizadas e opiniões sobre biologia, saúde, sexualidade e comportamento.