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O que vem primeiro: a frustração ou o "vício" por games?

Jairo Bouer

23/10/2019 23h01

Crédito: Pixabay

Jogar demais é doença? A Associação Americana de Psiquiatria (APA) e, este ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passaram a considerar a compulsão por games como um transtorno de saúde mental. A decisão foi baseada em estudos e no crescente número de pessoas que acumulam prejuízos graves na vida social, acadêmica ou profissional por causa do comportamento.

Mas muitos especialistas ainda são cautelosos em chamar o hábito de "vício". Afinal de contas, videogame não é como álcool ou certas drogas que geram dependência fisiológica. Nos últimos dias, uma pesquisa publicada por um instituto ligado à Universidade de Oxford, no Reino Unido, tenta fortalecer a tese de que o problema não é o jogo, em si, e sim as frustrações e problemas que levam alguns indivíduos a abusar dele.

Com base em questionários respondidos por mais de 1.000 adolescentes e seus respectivos pais ou cuidadores. A maioria dos jovens jogava pelo menos um game on-line diariamente e menos da metade deles relatavam sintomas que podem ser classificados como transtorno. No periódico Clinical Psychological Science, os autores dizem não ter encontrado evidência de que jogar muitas horas por dia cause problemas sociais e emocionais. Para eles, o que vale é o inverso.

Os resultados de certa forma contrariam o que um número cada vez maior de pesquisas com escaneamento cerebral. As imagens mostram que a obsessão por games exibe alguns elementos em comum com o vício por álcool e drogas. Na prática clínica, também há atitudes e comportamentos comparáveis. Não fosse por isso, não haveria tantas clínicas de reabilitação voltadas para usuários de internet, muitas delas criticadas por usarem métodos sem comprovação científica.

Entender os mecanismos por trás das diferentes formas de dependência é fundamental para se investir em tratamentos e políticas de prevenção eficazes. Demonizar a tecnologia, bem como o açúcar, a gordura, ou o sexo pode não ser o caminho para evitar que uma parcela da população tenha prejuízos por causa desses prazeres. Mas também não dá para fechar os olhos para o caráter "viciante" de muitos games, ainda mais porque a maioria dos usuários começa a jogar cedo, antes até de ter o cérebro completamente formado.

Sobre o autor

Jairo Bouer é médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e bacharel em biologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Fez residência em psiquiatria no Instituto de Psiquiatria da USP. Nos últimos 25 anos tem trabalhado com divulgação científica e comunicação em saúde, sexualidade e comportamento nos principais veículos de mídia impressa, digital, rádios e TVs de todo o país.

Sobre o blog

Neste espaço, Jairo Bouer publica informações atualizadas e opiniões sobre biologia, saúde, sexualidade e comportamento.

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